Acuar o javali até aquele ponto foi uma tarefa difícil, duas noites de chuva dormindo em barracas transformavam qualquer grupo, com lanças e cães de caça famintos, em uma massa feroz. A floresta fechada e escura durante o dia e chuvosa à noite fez o frenesi da caça ficar mais intenso.
Agora, contudo, na terceira noite, da chuva restava apenas uma lembrança úmida.
Três luas correndo e fugindo fizeram do forte animal uma sombra do que fora dias atrás. Sangrava onde os cães o haviam mordido. Suas narinas dilatadas, a respiração pesada e o fio de saliva que escorria da bocarra horrenda revelavam a exaustão que tomava conta do animal: o monstro foi cercado em um barranco e não tinha alternativa além de se atirar contra a parede de homens e lanças. O cheiro de medo exalando dos caçadores gritava nos sentidos do animal, dizendo talvez que tivesse uma chance.
Juntos, os caçadores formavam outro monstro maior e mais violento que qualquer javali. O frenesi da caça impedia o medo de dominar completamente os homens, apesar dos mais experientes observavam com os cantos dos olhos um ou outro novato tremer um pouco quando o animal dava qualquer sinal de movimento.
Bufando, o colosso escolheu aquele que lhe parecia o mais fraco dos alvos e se atirou com ferocidade correndo ao encontro do seu destino. Saltou. O homem enterrou o cabo da lança na lama e a ponta afiada atingiu o monstro bem no coração, a dormência da morte atingiu as feições do animal bem depois do grito de dor e rapidamente os espasmos cessaram. A última coisa que o grande javali ouviu foram os gritos de alegria dos caçadores, grunhidos assustadores que acordaram toda a floresta. Gritos que, contudo, se distanciavam de seus ouvidos como se já de fato não pertencessem mais a este mundo.
Filipe Augusto
Filipe Augusto

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